sexta-feira, março 08, 2013

Você tem fome de quê?

  Jovens vegetarianos contam como a vida pode ser mais saudável sem o consumo de carne


 O vegetarianismo, dieta que exclui todos os tipos de carne, tem raízes indianas e vem crescendo cada vez mais no Brasil e no mundo. Com a internet as pessoas podem se engajar cada vez mais em causas como ativismo em prol dos animais. Como fez Robson Fernando de Souza, 25, autor dos blogs Vegetariano da Depressão e Consciência Blog, que adotou o vegetarianismo há cinco anos. “Me tornei vegetariano na época do rodeio de Barretos de 2007, em que percebi que estava sendo incoerente ao defender alguns animais e ser indiferente ao sofrimento e à exploração de tantos outros”.
 Além de seguir a alimentação vegetariana, Robson também é vegano, estilo de vida que consiste em não usar nenhum produto de origem animal, como sabonetes feitos à base de gordura animal. Ele também é vegetariano estrito e não se alimenta de ovos, leite e derivados.
 O jovem aborda de maneira criativa e inteligente sua causa. Nos blogs desconstrói falácias, que são “argumentos logicamente inconsistentes, sem fundamentos, inválidos ou falhos na capacidade de provar eficazmente o que alegam”, de acordo com o novo pai dos burros, Wikipédia. “A falácia mais usada na tentativa de se defender o consumo de alimentos de origem animal é a falácia do espantalho, em que se imputa ao lado veg argumentos frágeis que na verdade não existem - um exemplo é a frase "Você diz defender a vida, mas plantas também são seres vivos".
 Robson é um dos poucos ativistas vegetarianos contrarreacionários, e isso para o rapaz não é motivo de orgulho, mas sim um indicativo de que às vezes parece lutar sozinho. O ativismo virtual é baseado na denúncia e resposta contra investidas reacionárias de carnistas, como o blogueiro chama onívoros que agridem a dieta vegetariana com base em piadas ofensivas ou falácias. “Por isso eu peço encarecidamente que o máximo possível de vegs me ajude na tarefa de responder ao conservadorismo carnista, que pode crescer muito nos próximos anos”.
 Segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, cerca de 17,5 milhões de brasileiros são vegetarianos. Assim como Robson, as gêmeas Natália e Camila Mendes, 22, passaram a ter em seus pratos, refeições bem mais saudáveis. As irmãs são vegetarianas há sete anos e não se arrependem nem um pouco. Começaram a pesquisar na internet sobre o processo de abate de bois, frangos e porcos. Logo veio a vontade de se tornarem defensoras dos animais. 
 Algumas pessoas não entendem que é cruel e acham bizarro quando nos preocupamos com o bem desses seres”, desabafa Natália. Elas contam que o processo de adaptação foi bem tranquilo, ao contrário do que a maioria pensa ao sacrificar o consumo da carne. As carnes brancas, de origem de aves e peixes, eram as mais consumidas nas refeições diárias das jovens. Já a carne vermelha era preferencialmente excluída, tornando a rotina mais fácil.
 Ao adotar uma alimentação vegetariana, é preciso estar ciente de que a quantidade de fibras e carboidratos, por exemplo, irá aumentar. Mas como em qualquer outra dieta, como a onívora, por exemplo, é preciso ter cuidados. “É bom ir ao médico pra ver se não falta algum nutriente. Nunca aconteceu, mesmo porque uma cuida da outra para não ter esse problema. Se eu não quero comer alguma coisa porque não gosto, a Camila já procura outro alimento pra substituir. Somos eficientes”, brincam.

Mineiro Maluquinho

  “Me acham doido. E eu sou mesmo. Muito demais da conta”

Hiperativo, disléxico e taquicardíaco. Filho de um filósofo e uma pedagoga, esse mineiro é Felipe Martins. Com 27 anos de idade, estuda psicopedagogia há 5 anos. Já perambulou pelos cursos de publicidade e propaganda e educação física, porém os abandonou antes que completassem um ano cada. Estudou budismo, taoismo, hinduísmo, mitraísmo, iorubá e judaísmo, mas não segue nenhuma religião. Trabalhou na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) como assistente de manutenção durante 10 anos. Aos 18, fez um curso de Barman e trabalhou em Maresias, Litoral Norte de São Paulo. O ritmo era puxado. Saía de Bela Vista, Osasco, na sexta-feira e voltava na madrugada de segunda, direto para o trabalho. Depois de 4 anos, abandonou o emprego. E essa série de desistências aconteceu por causa da necessidade de mudança que a hiperatividade exige. “O comportamental eu consigo controlar, mas no fisiológico eu sinto toda a agonia. Tem o lado ruim. Às vezes atrapalha porque você não precisa dessa disposição toda. Mas você simplesmente tem. O lado bom é que eu tenho a disposição que quase ninguém tem. É difícil alguém me acompanhar. Desde pequeno.”
           Felipe sofre com a hiperatividade desde os 6 anos e começou cedo com a medicação de tarja preta. A Ritalina é o medicamento usado para tratar déficit de atenção com hiperatividade e depressão. Na época, o remédio não era tão conhecido, e hoje, o Brasil é o segundo país que mais consome Ritalina, perdendo apenas para os Estados Unidos. Em excesso pode provocar insônia, perda de apetite, dores de cabeça, convulsões e até mesmo viciar o usuário. Felipe chegou a tomar quatro pílulas por dia quando criança. Felizmente, sua psiquiatra suspendeu o uso mês passado, já que ele está conseguindo controlar a ansiedade.  
           Entrou na escola um ano mais cedo do que deveria, pois precisava fazer atividades que ocupassem seu tempo. Ainda era pouco. Então começou com o Kung-Fu. O treino era pesado, mas também não era o suficiente. Vieram o karatê, o judô, a natação, o inglês e o skate. Todos ao mesmo tempo. Quando tinha 8 anos, o circo chegou à cidade e Felipe se apaixonou. Até hoje se lembra dos movimentos de malabares. Entretanto, seu pai sempre odiou essa relação com circo com a luta. Isso fez com que ele estreitasse a relação com o pai. Os dois brigavam e a mãe chorava. Os problemas familiares foram se acumulando e ficando guardados.  
          Em 2009, sua psiquiatra interrompeu a medicação pela primeira vez. Ele ainda tinha atitudes de adolescente. Era rebelde e arrumava confusão. Saiu de casa várias vezes brigado com os pais. Por puro azar, o momento mais doloroso e marcante de sua vida aconteceu nesse período de abstinência: a ex-namorada de Felipe se matou.
A jovem, que era enfermeira e veterinária, aplicou uma injeção de uma substância venenosa na veia e os músculos atrofiaram, mas não antes de escrever uma carta ao namorado. “Ela deixou uma cartinha super amorosa pra mim e eu fiquei doido, doido, doido. Fiquei totalmente psicótico”.
           Felipe começou a ter alucinações auditivas e visuais que aumentavam a cada dia. Ele a via em todos os lugares. “Eu pensava nela o tempo todo. Sempre via a cabeça dela passando nos lugares. Ouvia a voz dela me chamando”.            
Desenvolveu Síndrome do Pânico, que durava minutos intermináveis. Durante uma dessas crises, uma pessoa tem os batimentos cardíacos alterados, falta de ar e tremores, fazendo com que a ansiedade e o medo aumentem nas crises seguintes. E foi o que aconteceu. O rosto das pessoas se transformavam no dela e qualquer barulho intenso, como uma buzina de carro, se tornava a voz feminina. “Tudo eu achava que ia me infringir algum dano. Então eu transformava aquilo em algo que fosse me ferir”, conta. Acabou sendo internado em um hospital psiquiátrico para que recebesse os devidos cuidados.
           Geralmente associamos hospitais psiquiátricos à filmes de terror, com corredores escuros e pacientes sangrentos. Felipe diz que lá era totalmente diferente. Um campo claro, com muitas árvores. Os pavilhões eram divididos por patologia e possuíam dez quartos cada. Os quartos eram acolchoados e individuais, para que nenhum paciente se machucasse.
           Ficou lá durante um mês e uma semana. Tomou até choque. Como mágica, nos três primeiros dias já tinha recuperado sua lucidez. Percebeu que a condição dos outros pacientes era muito mais grave que a sua. Quando saía do quarto escuro e passeava pelas instalações, via cenas atordoantes. “Quando eu via as pessoas, eu ficava chocado. Vi crianças de 12, 13 anos batendo a cabeça nos lugares. Vi crianças descascando e comendo a massa da parede. Vi pessoas esfregando as mãos umas nas outras até sair sangue. Aí eu acho que fui dando valor a vida”.  
           Na segunda semana tentou fugir. Pulou os quatro muros que cercam o lugar e foi pego no último. “Pulei, pulei e tive que voltar”, ri. “Foi aí que eu comecei a ter a percepção de que, se aquilo era uma buzina, era só uma buzina. Claro, agora eu entendo isso. Agora eu também posso compreender que não foi o suicídio dela que me deixou louco, e sim um monte de bagunça na minha vida que eu tinha que por em ordem, mas vinha postergando, postergando e não resolvendo nada”.          
           Quando voltou para casa, ficou decidido que a relação familiar teria que mudar. Toda a família foi ao mesmo tempo na psiquiatra, por três vezes. Não foi uma boa ideia e brigaram em todas as sessões. Individualmente, tiveram que voltar nas relações que machucavam. O percurso foi difícil, principalmente para Felipe e o pai, já que o laço entre os dois estava desgastado e frouxo. Durante cinco meses, o clima não foi dos melhores e tudo só foi totalmente resolvido em janeiro desse ano.        
          Hoje, ele se identifica com as histórias dos pacientes que atende. Alugou um espaço perto do Shopping Continental, Jaguaré, e recebe desde crianças até adultos. “E eu me identifico. Eu vivi esses problemas. Claro que não todos. Mas me identifico com o sofrimento e não com o problema em si. Cada um tem um problema diferente do outro, mas o sofrimento é semelhante. É o fato de se sentir isolado, se sentir pior, se sentir abaixo.”
          E apesar de lidar com a tristeza dos outros todos os dias, Felipe colocou na cabeça que está determinado a ajudar, a fazer com que as pessoas acabem com os bloqueios que as impedem de serem felizes. “Você tem que dar possibilidades para a pessoa. Não dá para você resolver o problema de ninguém, mas sim, dar a condição para a mudança. Eu acredito que todo mundo tá disponível para qualquer coisa”.

Por Isabela Guimarães

Lei Maria da Penha: Aberração ou Salvação?




Apesar de ser bem recebida pela grande maioria da população brasileira e ser defendida pelas vítimas de agressões, a lei Maria da Penha sofre alguns obstáculos para sua total aceitação. A Constituição Federal de 1988 seguiu o princípio da igualdade de direitos, onde todos os cidadãos têm o direito de tratamento igual pela lei, sem distinção de qualquer natureza.     

Constituição Federal:            


"Art. 5o. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:           

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

     A crítica que é imposta à lei é de que o texto contraria esse princípio da igualdade de direitos previsto na Constituição. Alguns juízes não concordavam com a lei, alegando que era inconstitucional separar os crimes contra as mulheres dos demais. O caso mais conhecido foi o do juiz Edílson Rodrigues em 2007, que comparou a lei Maria da Penha a um conjunto de regras diabólicas. Em diversas sentenças nas quais estava presente, o juiz foi acusado de usar linguagem discriminatória e preconceituosa contra mulheres vítimas de violência. 
     Segundo ele, a desgraça humana teria começado por causa da mulher e completou misturando Direito com religião: “A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo (..) Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher. Todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem”.
     Em 2010, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou o afastamento de Edílson por dois anos, porém em  2011 o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou a sentença. De acordo com o ministro Marco Aurélio Mello, que determinou a suspensão, a acusação foi injusta, pois as considerações foram feitas "de forma abstrata, sem individualizar-se este ou aquele cidadão".
     O fato é que as opiniões parecem se dividir quando o assunto é o princípio da igualdade. A advogada Graça Teixeira comentou sobre o fato, dizendo: “O princípio da igualdade insculpido na Constituição Federal, não significa tratar a todos igualmente, e sim tratar os desiguais assim como se tratam os iguais. Isto é filosofia do direito”.          
     Já a advogada do CFEMEA(Centro Feminista de Estudos e Acessoria) Myllena Calasans, disse em 2008 que a lei gera uma desigualdade de condições entre homens e mulheres, mas justifica dizendo que essa diferenciação é necessária para corrigir distorções históricas entre os gêneros. “A cada 15 segundos, uma mulher é agredida no Brasil. Historicamente, isso advém de uma visão machista. Então como se discutir igualdade sem perceber a diferença”, questiona.             
    Alguns outros textos virtuais que se encontram na internet são bem tendenciosos, deixando bem claro o lado que defendem, como: “É óbvio e evidente que a mulher acaba sendo a mais fraca na relação familiar, em regra, e assim merece especial proteção.” ou “O fato de em alguns países haver esse tipo de violência (contra o gênero, e não apenas do marido contra sua própria mulher) não nos autoriza a editar uma lei específica para proteção de todas as mulheres brasileiras (...)”.
   De acordo com a Fundação Perseu Abramo, até 2010, “
Uma mulher a cada cinco era espancada a cada 15 segundos. Atualmente esse tempo subiu de 15 para 24 segundos, o que significa que se antes 8 mulheres eram espancadas a cada dois minutos, agora são 5 a cada 120 segundos.
   Depois de todas essas opiniões divergentes, cabe a cada um determinar no que acreditar. A lei Maria da Penha realmente é de grande ajuda ou as supostas falhas nela ‘encontradas’ deveriam ser revistas?
Escrito por Isabela Guimarães

“Eu vou, eu vou pra...



...C
âmara Municipal de São Paulo, eu vou.”
Sexto andar. Saindo do elevador à esquerda, final do corredor, porta à esquerda. Sarah da Silva Santos, a secretária, começa a coletar meus dados para que eu possa entrar no gabinete. Às 3 horas em ponto, entra pela porta um senhor com cerca de 1,90 de altura e com a voz grave cumprimenta as cinco pessoas ali presentes. Momentos depois, Sarah diz que posso entrar e com um largo sorriso, o vereador Wadih Mutran pede para que eu sente. E começa a gravação.
- Sarah? Manda fechar a minha porta aqui e não passa telefone pra mim que eu vou estar gravando aqui, tá? Obrigado.
Bacharel em Direito, Wadih Jorge Mutran, 76 anos, nasceu em São Paulo. Na vida já fez de tudo. Foi engraxate, jornaleiro, feirante, motorista de caminhão, corretor de imóveis... e após essa imensa jornada, no dia 31 de dezembro completará 30 anos como vereador. E apesar de todo esse tempo ainda descreve os fatos como se tivessem ocorrido ontem.
“Hoje eu tenho na casa 29 anos, 4 meses e 25 dias. 1º de Janeiro de 1983! Foi a minha primeira legislatura de 6 anos e eu vou completar 30 anos dia 31 de dezembro de 2012.”
Enquanto atuava como corretor de imóveis, interessou-se pela política e  começou a trabalhar para diversos políticos, tais como Ademar de Barros, Cantídio Sampaio, Farabolini Júnior, Paulo Salim Maluf e até mesmo o 22º presidente do Brasil, Jânio Quadros. Aos poucos começou a se tornar mais ativo até que entrou no PP (Partido Progressista). Em 1980, foi convidado para participar da eleição que foi prorrogada, acontecendo em 1982.  Foi candidato e ganhou a primeira eleição. Depois disso não perdeu mais nenhuma.
Em sua vida sempre teve responsabilidades. Trabalha desde os 6 anos de idade. Sua infância foi muito difícil, por isso trabalhava de engraxate para ajudar o pai. Com 13 anos foi registrado na primeira empresa. “Móveis de Aço Fiel.” Lembra o vereador com certa nostalgia na voz.
Uma de suas curiosas profissões foi motorista de ambulância. Esse emprego surgiu enquanto trabalhava como motorista de caminhão e arranjou uma vaga à noite no Departamento de Imigração do Estado. Nessa época ser vereador nem passava por sua cabeça, mas sempre dizia que o dia em que tivesse dinheiro iria comprar uma ambulância para ele. E assim o fez.
“ E eu comprei uma antes de ser vereador. E eu dava plantão com essa ambulância só pra trabalhar de sábado e domingo na Via Dutra, entre a Ponte da Vila Maria até Guarulhos. Eu ficava por ali. O que acontecia eu levava pro hospital que tinha na Avenida Guilherme Cotching, na Vila Maria. Fechou aquele hospital. Mas eu socorria e levava ali. Ora, mas a gente atendeu muita coisa... e aí, vinha um, pedia um favor, vinha outro, eu comecei atendendo, atendendo. Fui candidato, ganhei a eleição, aí comprei mais uma, pus motorista e fiquei atendendo o povo.”
O senhor Mutran é conhecido como o “Vereador das Ambulâncias”.  Possuía uma frota de ambulâncias, usadas no transporte de moradores da Zona Norte para hospitais da capital. No entanto, ele não pôde ter as ambulâncias como vereador. Sofreu uma condenação por ter a ambulância em seu nome, tendo que pagar 120 cestas básicas. Mesmo com toda essa confusão, montou uma empresa e a dona é sua esposa, Iracema Mutran. Ao longo do tempo, a frota foi aumentando e chega ao número seis. Quem dirigia a primeira ambulância era ele próprio. Quando se tornou vereador, contratou um motorista. “Mas às vezes de noite, eu tinha que sair, porque o motorista só trabalhava durante o dia, de noite eu não podia acorda-lo para ir. Ele precisava descansar porque no outro dia tinha compromisso. E também não era uma coisa assim muito constante, mas já aconteceram várias vezes.” Em 30 anos, foram emprestadas aproximadamente 10.000 cadeiras de rodas, 350.000 cadeiras de banho, além de muletas, andadores, etc.
Ao ser questionado sobre a área de atuação (apenas na Zona Norte), ele conta que os bombeiros têm 150 ambulâncias e não conseguem atender a todos. O mesmo acontece com a Prefeitura que possui mil ambulâncias e o Estado com aproximadamente quinhentas. Com apenas seis, a atuação teve que ser limitada a um espaço. As áreas incluídas são: Vila Maria, Parque Novo Mundo, Vila Sabrina, Jardim Brasil e uma parte do Jaçanã, Vila Guilherme e Vila Gustavo.
“Mas lutei, lutei e agora eu quero ajudar quem não pode!”
O Comitê do vereador recebe a população que é diretamente atendida por ele. Os pedidos são os mais variados e até mesmo dinheiro aparece nessa lista. Um dos pedidos mais marcantes foi o de uma senhorita que queria se casar, mas seus documentos estavam no Norte do país. O escritório providenciou todos os papéis e a história terminou com um final feliz.
Wadih Mutran adora ser vereador. Acaba gastando mais com a população do que ganha com o salário de político. “Se eu fosse vereador por dinheiro eu tinha que ir embora. Quanto mais eu puder fazer, mais eu vou fazendo.” E emenda, entre risos, que sua saúde está ótima! “A saúde é o principal. Eu não tenho problema de doença, né? Não tenho nada. Tenho 76 anos de idade, to bem, to trabalhando. Sou aposentado há 33 anos por tempo de serviço e continuo trabalhando. E é maravilhoso. Eu me dou bem, me sinto bem. Não vivo acabado por aí, sem andar, arcado. Eu ando normal! Pra mim isso tudo é ótimo. Vale muito fazer isso pra mim. Eu to te falando que eu tenho problema de não ouvir. E às vezes eu falo alto, mas o que é que eu vou fazer? Sai! Sem querer sai, é normal. Você vê que eu falo alto, né? Eu queria que me curassem, porque eu também sou meio surdo, você já viu várias vezes que eu perguntei: “Hã, hã?”.(Risos) Porque eu também não to escutando bem, mas e a idade, né?”
Conversamos sobre seu relacionamento familiar. Sobrinhos, cunhados, filhos. Todos são muito especiais e incentivam sua vida política. Mostraram-se atenciosos no delicado caso de 2006 do sequestro de seu filho, o advogado Ricardo Mutran. Foram 39 dias, quase sem dormir e de sofrimento, sentados em uma mesa com o telefone ao lado, esperando uma ligação. Nesse momento, Wadih Mutran teve medo que matassem seu filho. Apesar de tudo, no cativeiro Ricardo teve um “bom relacionamento” com um dos assaltantes. “O rapaz que trabalhava de carcereiro, que tomava conta dele, foi no supermercado e viu uma senhora paraplégica numa cadeira de rodas doada pelo vereador Wadih Mutran. Ele leu e começaram a sair lágrimas dos olhos. ‘Poxa, o que tão fazendo com esse homem? Ele não merece. ’ E ele chegou lá e contou pro meu filho. Ele ficava sem o capuz lá. O cara levava a roupa do meu filho pra mulher dele lavar, trouxe coberta pro meu filho se cobrir, foi época de frio. Aí o cara trouxe baralho, ele falou: ‘Pai, eu nunca perdi tanto na tranca que nem eu perdia pra ele, porque eu perdia de propósito, jogava a carta errada, só pra ele ganhar e ficar rindo de mim!’
Apesar disso, para Ricardo ser liberado, uma grande quantidade de dinheiro foi entregue em troca. “Se eu não tivesse o dinheiro, iam matar ele e eu tava sem o meu filho hoje. O que que valia a minha vida?”
O grupo não foi punido, pois os indivíduos não foram identificados. Ao contar sobre um dos três assaltos em sua casa, onde 5 ladrões fizeram reféns os que estavam ali presentes, desabafa indignado: “Quando eu fui na frente da justiça, parecia que o bandido era eu! O juiz falou pra mim que eu devia responder o que ele perguntava. E eu falei pra ele: ‘Olha excelência não é o que o senhor pergunta, é aquilo que eu sei que eu vou responder’. Ele respondeu: ‘O senhor cala a sua boca senão eu mando lhe prender. E está encerrada a sessão’.  Foi embora.”
Mutran também critica a forma que a penalidade é aplicada no Brasil. Apoia que a Constituição tem que mudar. Ele diz que na hora da população votar, devem escolher candidatos que prometerão mudar a Constituição. “O bandido tem que trabalhar... eles não trabalham, ninguém trabalha! Põe pra carregar pedra na beira da estrada, põe a bola de aço no pé põe pra trabalhar, capinar beira de estrada, dá um salário pra ele ajudar a família. E infelizmente são essas coisas que o Governo e os políticos deveriam olhar no sentido de procurar alguma coisa pra esse pessoal fazer. Não adianta só dar, tem que fazer trabalhar também. O que precisar tem que trabalhar. O bandido roubou? Foi pra cadeia? Ele que tem que trabalhar pra comer! Se não trabalhar, não come. Morre de fome! Essa é minha opinião.”
Opinião que, ao longo do tempo, torna-se cada vez mais forte. Aliás, nunca em sua vida se arrependeu de nada. “Nem no meu casamento houve arrependimento! Eu vou completar agora no fim do ano 56 anos de casado. Graças a Deus. E eu falo sempre: “Se quando eu morrer tiver outra vida e eu encontrar com a minha mulher eu quero casar com ela outra vez! E ela merece mais parabéns que eu, do tanto que ela me atura! (Risos)
A relação entre o Sr. e a Sra. Mutran é caracterizada por ele como maravilhosa. É uma vida que é difícil de ser encontrada hoje em dia. A juventude está muito diferente da de antigamente segundo ele. O relacionamento com os jovens de hoje está se tornando cada vez mais difícil. A televisão é um desses fatores negativos em uma relação familiar.
“Acabou a família. E você sabe o que eu percebo? Tem dia que não dá vontade de ir na casa de uma outra pessoa. Você entra na sala eles ligam a televisão. Parece que ninguém tem mais nada pra conversar.  Antigamente a gente conversava com os filhos, falava das coisas, explicava... não tinha a televisão, tinha o rádio. Mas primeiro a família. Hoje é a televisão. Todo mundo chega lá, liga a televisão... é televisão pras crianças das 8 às 10 da noite, que ensina um monte de besteiras.
Por isso que o cara casava e vivia 40, 50 anos até a mulher morrer. Hoje você casa por dois minutos! Aprendeu na televisão como é que é. Porque nas novelas é tudo assim. Casa hoje, amanhã tá separado. Ensina!”
Sem perder o tempo da piada, completa: “Vê lá que ele ficou rico, ela ficou rica separando... e a esperança da separação é sempre essa.”
O bom humor durante a entrevista não acabou por um minuto sequer. Ao nos despedirmos, tratou de deixar claro que as portas estariam abertas para qualquer eventualidade. Uma semana depois do encontro, recebo uma carta contendo os seguintes dizeres: “Prezada jovem e futura jornalista, é com grande satisfação que escrevo estas linhas para agradecer sua visita ao meu gabinete. Agradeço ainda pelo interesse e confiança em meu trabalho e por ter escolhido este vereador para ser entrevistado como uma pessoa que faça a diferença”.
Talvez o verdadeiro sentido da vida não seja apenas beneficiar a si mesmo. Com pequenas atitudes podemos fazer um pequeno momento se tornar especial à outra pessoa. E ao fim dessa matéria posso afirmar com toda a certeza que esta jovem futura jornalista está no caminho certo. Encontrando pessoas que façam a diferença na vida de outros milhares.


Escrito por Isabela Guimarães